quarta-feira, 8 de outubro de 2014

a abysmo do cotrim


 quando trabalho com um autor quero sempre trabalhar com ele.
um editor ideal é uma série de "eus"
João Paulo Cotrim

fui à abysmo encontrar o João Paulo Cotrim num fim de tarde de Verão. foi uma das primeiras entrevistas. conhecia o trabalho do João Paulo mas não conhecia a pessoa. foi no desenrolar da nossa conversa que percebi o potencial do editor-pessoa. uma das resoluções que tinha definido quando iniciei este projecto de investigação foi que ele se iria desenrolando consoante aquilo que fosse acontecendo durante as entrevistas. e ao conhecer o João Paulo e o seu trabalho na abysmo percebi rapidamente que tínhamos aqui um caso de um profundo equilíbrio entre crescimento e fidelidade a princípios editoriais dos quais não se abdica e que, a abdicar, tirariam o sentido da existência da editora como ela fora pensada.

ainda não cheguei à definição final de denominação destas editoras, ainda me fico pelo "editoras independentes" ou "pequenas editoras". o ter escolhido a abysmo como um dos primeiros casos de estudo não foi visto por todos de forma pacífica. será a abysmo uma pequena editora ou uma editora independente? serão estes conceitos inclusivos? a abysmo mostra que não. que uma editora independente não é obrigatoriamente uma pequena editora (e muito mais tinta teria de correr sobre esta questão do "tamanho". avante.).

João Paulo Cotrim criou a abysmo em Setembro de 2011 por uma circunstância simples e comum ao início de muitas editoras, a vontade de publicar um livro específico, o Branco das Sombras Chinesas neste caso, por sugestão de António Cabrita, autor da abysmo e amigo. depois dessa sugestão percebeu que aquilo que gostava era de fazer livros e que por isso o melhor que podia fazer era fazê-lo profissionalmente mas para ele próprio e não para terceiros. define nessa altura esses princípios editoriais (que são mais do que linhas ou posições) que passam por um compromisso total com o texto. esse compromisso dita as regras editoriais de escolha de originais. o facto de terem surgido no início de uma crise económica muito violenta para qualquer negócio colocou-os num sítio onde muitas editoras se colocaram nestes últimos três anos - um sítio de liberdade onde se vão testando barreiras e limites, onde se arrisca a publicação de novos autores. durante a conversa fomos revelando algumas das características mais determinantes da abysmo. o texto é escolhido por um lado pela sensação do editor que lhe transmite a qualidade literária do mesmo e depois tendo como base a confiança em alguns amigos que lhe sugerem autores. o autor que entra para abysmo torna-se família e acaba por participar nos processos da editora quer nos seus livros quer no conjunto editorial. os autores tornam-se leitores para a editora e amigos da casa, construindo assim a unidade e coerência visível em todo o catálogo.

uma característica que distingue a abysmo das outras editoras é o facto de cedo ter percebido que se o livro não se promover por si não vai ter vendas. e aqui a promoção é entendida de um ponto de vista diferente da promoção que vemos em grandes grupos editoriais que têm por trás uma gigante máquina de marketing e fundos que a alimentam. neste caso o João Paulo percebeu que o livro tem qualidade por si e que o que a editora tem obrigatoriedade de fazer é mantê-lo vivo usando dessa mesma qualidade. e isso pode ser feito através de redes sociais, dinâmicas em que os autores se apresentem em público, exposições ou outros eventos associados ao livro impresso (a abysmo é hoje também uma galeria de exposições).

podemos dizer que o João Paulo não descobriu segredos bem guardados mas observou as diversas formas de se fazer edição e juntou ingredientes de sucesso - o tipo de sucesso que o interessava, o que os permite crescer sem comprometer em nada a qualidade literária. o sucesso advém apenas dessa mesma qualidade. o João Paulo juntou assim novos autores em quem acreditava fortemente, decidiu que não queria criar cânones e sim escritores, juntou com mestria escritores com ilustradores, criou uma família onde transparece amizade e cumplicidade. percebeu também que ao arriscar em novos autores está não só a criar leitores no presente como também leitores do futuro.




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Manuel Resende

Manuel Resende, Em Qualquer Lugar seguido de O Pranto de Barlomeu de Las Casas , &Etc, 1997