quarta-feira, 13 de maio de 2015

ler na retrete, henry miller


“Creio que actualmente lemos pelas seguintes razões: em primeiro lugar, para nos afastarmos de nós próprios; em segundo lugar, para nos armarmos contra perigos reais e imaginários; em terceiro lugar, para “acompanhar” os vizinhos ou impressioná-los, o que é uma e a mesma coisa; em quarto lugar, para saber o que se passa no mundo; em quinto lugar, para desfrutarmos, o que significa sermos estimulados de modo a alcançarmos uma maior actividade e riqueza interior.
[…] Não é necessária muita reflexão para concluir que, se uma pessoa fosse justa consigo mesma e tudo estivesse bem no mundo, só a última razão, a que hoje em dia tem menos importância, seria válida.”

este é um livro do qual não se devia falar. podíamos dizer que é um livro sobre a leitura, pragmática e de profundidade, livro que questiona a utilidade da própria leitura - ler na retrete é ler com uma utilidade contextual. qualquer uma destas interpretações, não estando longe da verdade, estão a fugir ao próprio propósito do livro, discutir e incentivar a absoluta liberdade do leitor que não deve necessitar da leitura para disfarçar momentos de silêncio e contemplação.

na verdade assistimos a uma dessacralização da leitura, leitura essa que é orgânica e não sagrada, interior e não cumpre regras ou ditames, pertence a todos de forma democratizada e independente de constrangimentos exteriores como a história ou a cultura - é por isso um livro sobre a solidão, uma apologia da individualidade e da leitura como parte integrante do homem e que por isso não é parte obrigatória dessa humanidade.

(e é também, claro, um livro sobre a importância de nos libertarmos do que em nós está a mais e que não é utilizado pelo corpo e que por isso deve ser expelido libertando-nos de impurezas.)

não é possível concluir se Miller defende ou condena a leitura na retrete, no limite nem interessa. não se pode afirmar nada deste teor em livros que são hinos à liberdade do leitor. fica a cada leitor o entendimento de uma resposta na verdade impossível de obter.

esta é uma edição cuidada e conjunta ignota e sr teste. em bom.

para comprar, aqui: assimparece@gmail.com ou na livraria sr teste + ignota, na S. I, Guilherme Cossoul, em Lisboa.

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Clarice Lispector

À Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, Relógio de Água