sábado, 7 de maio de 2011

Hasta luego, Buenos Aires

Faltam poucas horas para deixar a cidade. Lá fora anoitece cedo. Desci a cidade a pé, em silêncio, e fui dizendo este texto para dentro, muitas vezes. Viajar sozinha permite-nos muitas coisas boas, uma delas é pensar a cidade continuamente enquanto vivemos dentro dela. É tentar entendê-la de alguma forma diferente da que poderíamos pensar à partida.
Vim para Buenos Aires sem imagens da cidade. Não sabia o que ia encontrar. Da Argentina tinha os livros e mais nada. E já era muito. Os livros transportam-se de uma forma inigualável para dentro de um país. De alguma forma acredito que já conhecia Buenos Aires, alguns detalhes, algumas ruas. Foi como um reconhecimento em imagens de ideias que fui lendo. As palavras nunca são iguais às imagens e a magia vem mesmo dessa complementaridade.
Foi uma viagem de contínuas surpresas. Tantas que até o corpo se cansava às vezes. Mas a alegria nunca falhou na Argentina. Conheci pessoas felizes. As pessoas na Argentina são mais felizes quando se encontram na rua, quando se falam numa loja, quando te dão uma informação. Em Buenos Aires as pessoas são frenéticas, a cidade é frenética. Com uma energia inigualável.
Falei muito de livros na Argentina. Cruzei-me com muitas pessoas que me falaram de livros. Que me disseram que livros tinha mesmo de ler. Imperativos sempre os argentinos. "Tens de ler". E conheci o cinema argentino, o bocadinho que consegui conhecer. Um cinema poético, com aquele toque de realismo mágico que os livros também têm: difícil de descrever mas muito fácil de perceber quando o encontramos. O realismo mágico é a alma dos hispano-americanos. E tem essa mágica característica de só se sentir, não se exprimir.
A arte argentina tem um progresso interessante, começa numa arte indígena, andina, e vai-se misturando lentamente com a arte mundial (com as influências mundiais da pintura pós 1800), mantendo sempre o seu lado da terra, sempre. O seu realismo mágico, mais uma vez. De todos encantou-me Antonio Berni, com a sua profunda mistura cultural.
Depois o tango. Ouve-se tango em todo o lado. Vêm-se silhuetas de Tango em todas as esquinas. Em Buenos Aires claro. Fui ouvir e dançar tango num bar pequenino aqui no bairro de San Telmo. Uma miúda como eu sozinha num bar de tango até altas horas da noite só podia atrair as maiores simpatias por parte destes argentinos de velha guarda como eram todos na La Cumparsita. Dançámos, cantámos, conversámos. Sempre acompanhados do maravilhoso vinho argentino. Não há igual, se bem que vinho mesmo do melhor é em Mendoza, onde também passei cinco dias, à beira da Cordilheira dos Andes.
E o que mais em encantou foi mesmo Buenos Aires. Esta cidade. Aterrorizante no primeiro dia. Grande, barulhenta, confusa. Perdi o Norte. E encontrei-o devagar. Agora que me vou embora já tenho o desenho da cidade debaixo dos pés. Fui vendo os detalhes, as pessoas todas. As livrarias por todo o lado, a música. As manifestações por todo o lado, todos os dias. Os acampamentos permanentes permanentemente a reivindicar qualquer coisa. O sol desta cidade. O rio de La Plata. Os portos. Os prédios. O sotaque argentino. A mistura cultural, os tons de pele todos diferentes. O tanto tanto tanto que fica por fazer e por dizer sobre Buenos Aires.
Caramba, fui mesmo feliz na Argentina.
Hasta luego Buenos Aires.

1 comentário:

argumentonio disse...

bela crónica, excelente partilha, imagina-se o ambiente, a descoberta, os tangos, o prazer de cada dia, mesmo de perder o pé com uma cidade tamanha debaixo dos pés, num país do tamanho do mundo, em meridianos do outro lado do mundo e um mundo novo a trazer para casa, nos pés, nos olhos e no coração de ... uma miúda!

é-se feliz onde se é miúda!!

;_)))

Clarice Lispector

À Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, Relógio de Água