sexta-feira, 1 de julho de 2011

encontrei a beleza aqui escrita, com todas as palavras

Nunca soube escrever sobre livros. Escrever aqueles textos onde dizemos o que é muito-bom-porque-é-parecido-com-qualquer-coisa-ou-mau-porque-é-qualquer-outra-coisa. Não sei dar notas, nem pontos, nem estrelas. Sei pegar em livros, passá-los para a mão de outros e dizer "lê". É também assim com Afonso Cruz. Mas com o Afonso uma só palavra não chega. Sobre este livro, Pintor debaixo de um lava-loiças, a primeira descrição que ouvi foi: "é daqueles livros onde sublinhas todas as frases". E é. A história do pintor Josef Sors, a história de amor da infância, onde o baloiço é o mote ("o mundo inteiro puxa-nos para baixo, mas as mãos de quem gosta de nós atiram-nos para cima"), com Frantiska, "símbolo do infinito, um oito preguiçoso".
Conta a história da viagem do pintor até à I Guerra onde descobre que "para ganhar uma guerra há duas condições: não morrer e não matar.". A viagem até aos Estados Unidos, depois de volta a Bratislava, depois para a Figueira da Foz. É a história de um pintor que quase não vê, não vê a luz e as cores fortes. É a história de um pintor que desenha olhos. Abertos e fechados. Um pintor que se deita no chão porque o amor é como uma casa sem tecto,  quando se olha para cima só se vê o céu. E porque não podemos andar sempre de pé para que aqueles que já morreram não estejam sempre a ver o alto da nossa cabeça e sim os nossos olhos. E é uma história de uma família. De um pai morto por não "perceber poesia". De uma mãe que finge que, à mesa, eles haviam sempre de ser três.
E é uma história de amizade e resistência (e que falta nos fazem histórias de resistência), de uma família que esconde um pintor judeu debaixo do lava-loiças.
Este livro é de uma beleza inexplicável. Cada personagem, cada palavra, cada título, cada ilustração.
E como epílogo (golpe de misericórdia para quem como eu se vinha comovendo devagar página a página) o Afonso conta-nos o que de real existe nesta história. E são páginas como flores na cabeça do coronel. E música. E ter vontade de escondê-los a todos debaixo do nosso telhado. E ao Afonso também.
São livros destes que me fazem perceber isto de estar aqui, sempre tão prisioneira das palavras.
Obrigada Afonso.

1 comentário:

Vicious disse...

Ai, Rosinha, agora já vou entrar em despesas e comprar mais este;)

Manuel Resende

Manuel Resende, Em Qualquer Lugar seguido de O Pranto de Barlomeu de Las Casas , &Etc, 1997