terça-feira, 6 de março de 2012

"novos autores e novas escritas em Portugal" parte um | os autores e as pessoas


Este tema parece sobejamente falado e debatido. Desde os tempos de escola que se discute se fará diferença conhecer a vida do autor, as suas nuances pessoais, para o compreender melhor. Creio que a maioria responde que não, que a obra vale por si. Outros respondem que acrescenta dados às leituras e interpretações. Em autores como Fernando Pessoa a vida pessoal é a própria obra, ou melhor, aquilo que se considera saber sobre a vida pessoal pode bem ser obra. Serão sempre especulações. Em autores como o Luiz Pacheco a vida dele é tantas vezes mais conhecida do que a obra. E o amor que lemos na Comunidade é muito maior porque "aquele" Luiz Pacheco o sentiu e escreveu.

Mas quando falamos dos novos autores, nossos contemporâneos e, claro, vivos, podemos falar do que é conhecê-los, não só através de entrevistas e aparições públicas mas também pessoalmente. Um escritor nunca vai ser uma figura pública como as outras a não ser que não sejamos seus leitores. Mas tenho a ideia romântica de que só olhamos para um escritor enquanto tal depois de o ter lido. É como um segredo entre nós e eles. Nesse sentido aquilo que sabemos sobre ele será sempre mais do que ele sabe sobre nós. Esta, para mim, é uma das linhas que distingue um escritor muito bom. Quando estamos a falar com ele pela primeira vez e quase sentimos desconforto por saber que lhe conhecemos as entranhas. Que sabemos os cantos negros do que pensa, que lhe conhecemos a poesia. Quando sentimos carinho por ele nas primeiras palavras porque imaginamos que quem escreve aquilo tem de ser naturalmente encantador. Isto não é linear mas a mim nunca me enganaram. Até hoje. Os que se mostraram desinteressantes, vazios de sentido, os que pareceram figuras mais públicas do que de escrita são apanhadas em poucas linhas. Podem ter arte mas falta-lhes sangue. E um escritor tem de ter sangue no que escreve. Seja em forma de desenho, poema, texto infantil, ficção. Seja no que for, porque na sua medida única a escrita deve ser um espelho, uma história que existe no mesmo espaço que a folha e o escritor e depois com os leitores. Um escritor em bom faz-nos querer conversar com ele com uma folha escondida.
Só assim a escrita cumpre o seu objectivo final de passar uma mensagem, para quem a quiser receber. Porque um público deve escolher o seu escritor e não o contrário. Discordem de mim se acharem que não tenho razão. 


A conferência "novos autores e novas escritas em Portugal" acontece dia 23 de Março, às 21h30 no MAEDS, Avenida Luísa Todi, nº162, Setúbal, a convite da Synapsis.

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Manuel Resende

Manuel Resende, Em Qualquer Lugar seguido de O Pranto de Barlomeu de Las Casas , &Etc, 1997