sexta-feira, 14 de novembro de 2014

regressar a uma casa que não existe

Cláudia Clemente já tinha escrito dois livros de contos e um livro de teatro. Este é o primeiro romance. no entanto é um romance fragmentário que pode ter ligações com esse universo do conto. numa série de fragmentos articulados de forma absolutamente orgânica a autora conta-nos várias histórias que aparentemente são distantes mas que a determinado momento do livro se unem com uma naturalidade que escapa ao próprio leitor.
este livro fez-me pensar na questão das expectativas. pegamos num livro que se chama Casa Azul e lemos que a autora viveu mesmo nessa casa quando crescia. e de repente preparamo-nos para uma leitura já tão contextualizada e apercebemo-nos logo que a Casa não existe e apenas nos sobra o contexto de um livro que ainda não lemos. a história deste romance não é sobre a Casa. é sobre a forma como se sobrevive às ruínas de uma casa. ruínas que são da casa e dos seus habitantes. é um livro que parte da ruína para a construção e que encontra assim de forma instintiva uma mensagem de alento e positividade, numa história que dificilmente se adivinhava com essa forma, numa mensagem de plena liberdade, mas que apesar disso é sempre claro que se trata de uma casa que não existe. o livro mostra como é possível reconstruir ruínas sem que o que antes existia volte a existir. uma reconstrução de sentidos e não de paredes.
desta forma podemos dizer que a casa em ruínas funciona como uma explosão de estilhaços que se espalham em diversas direcções mas que regressam depois a casa, cada um com o seu ritmo e a sua forma de o fazer, sem saberem que os outros estilhaços estão também nessa altura a fazer o mesmo regresso a um sítio onde não se lembram de um dia ter vivido juntos.
é um livro duro, real, doce e verdadeiro. um belo primeiro romance.


A Casa Azul
Cláudia Clemente
Editora Planeta

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