domingo, 9 de outubro de 2016

das leituras de poesia

era uma  noite normal em Guimarães e fomos jantar ao restaurante do Sr Roberto, mesmo ao lado do antigo espaço da livraria Snob. no restaurante do Sr Roberto juntam-se por vezes alguns snobs, que preferem não largar a rua D João I e revisitar a Snob, e revisitarem-se uns aos outros. enquanto jantávamos e bebíamos vinho da casa falávamos de livros e outras intimidades. intimidades porque não falávamos de uns livros quaisquer que nos diziam alguma coisa a cada um de nós, falávamos dos poemas e dos livros que acreditávamos que fariam sentido a todos os que ali estavam. foi quando falámos do Forte e lhes li ali, entre o vinho da casa e a sopa de cação, O Mais Belo Espectáculo de Horror Somos Nós. e até hoje tenho pensado no que foi aquilo.

há muitas leituras de poesia. os eventos no facebook multiplicam-se, inventam-se temas, há espaços onde só se lê poesia, há espaços improváveis onde ouvir poesia, e tudo isto é bom e saudável e mostra a poesia a existir. mas é preciso parar, é preciso fazermos uma pausa antes de continuar, antes de deixar que as leituras se sobreponham à poesia. é preciso cairmos na banalidade de afirmar sem hesitar que é perigoso banalizar a poesia.

creio que só há duas formas de ler poesia. sozinhos, em silêncio, ou em diálogo. não devemos ler poesia em voz alta porque gostamos dela, porque gostamos de conviver e juntar pessoas num espaço. devemos ler poesia directamente para quem nos ouve, e com quem nos ouve, puxando em quem nos ouve os sentidos, os instintos daquele poema.

não vou dizer que a poesia tem algo de sagrado, ou a literatura. o que há de verdadeiramente sagrado é a relação do leitor com o poema. e por sagrado leio belo, raro, precioso, secreto. ouvir um poema de outra pessoa em diálogo com quem a ouve é um momento precioso.

não há aqui lições de moral, ou juízos de valor. não vou insurgir-me contra as tantas leituras de poesia. estou só a partilhar um segredo. confessar que a Botica, o Sr Roberto, o sotão da minha casa na Damaia, a minha mesa de jantar fizeram mais pela minha relação com a poesia do que cem eventos que já vi este ano com leituras de poesia. e sem ser moralista digo também que é preciso parar. respirar. sentir a pausa necessária antes de começar a ler uma linha, um primeiro verso. e isto porque defendo a beleza da poesia da mesma forma que terei sempre espaço para me insurgir contra a normalização dos livros. a quantidade não é sinónimo de difusão poética. o diálogo é sim a maior forma, arrisco dizer a única, de atingirmos a verdadeira revolução poética que só à poesia diz respeito.


1 comentário:

Nuno “Azelpds” Almeida disse...

É quase uma anomalia ler este texto nos dias que correm. Digo isto no bom sentido. Espírito crítico faz falta, alguém que contraponha e diga o óbvio (de uma forma construtiva) invés das palmadinhas nas costas constantes que levam à banalização e a que as coisas não evoluam.

Tenho dito e escrito ideias semelhantes no que toca a este assunto (e outros), dos perigos e tendência para banalizarmos tudo de tal maneira até se chegar ao ponto de sobrar apenas o ruído digamos. As leituras acabam por se impor, os locais, ou até a forma como se lê em detrimento do conteúdo. Aliás, o que assisti, várias vezes, é que o conteúdo era irrelevante. Senti-o novamente há dias, em mais um evento público relacionado com poesia. Foi constrangedor, como se aquele evento e publicação tivessem sido obrigados a existir no pior sentido do termo. A poesia? Essa ficou perdida algures pelo caminho.

É uma lógica de mercado semelhante à propagação dos festivais literários, lançamentos de livros e outros eventos. Raramente se irá encontrar aí algo que mude a nossa relação com a literatura/poesia/livros. Com os autores isso já poderá acontecer e não num sentido positivo normalmente porque nem sempre se consegue fazer o exercício de separar o autor de quem temos à nossa frente, mas isto é assunto para outra altura.

Recentemente, lancei dois livros (mais de metade dos exemplares já encontraram uma casa sem ter existido uma única apresentação ao vivo curiosamente, por muito que toda a iniciativa em si se preste a isso). E antes de o fazer escrevi umas linhas relacionadas com o assunto das leituras e apresentações, as quais abandonei há cerca de 20 anos no que me toca, que resumem o que sinto em relação às leituras.

«... ler (ou mesmo ouvir) é um processo íntimo, nosso, que se desfigura e se perde nas leituras ao vivo...»

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