terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O Círculo da Felicidade

Há uns tempos escrevi um livro para crianças que se chamava O Círculo da Felicidade. Mais do que livro era um jogo para as crianças. Que nasceu com os adultos. O princípio é o mais simples de todos. As crianças pensam em todas as coisas que mais gostam, que as fazem sentir mesmo felizes. Saem as frases mais mirabolantes, os conceitos mais bonitos e também os mais divertidos. Esse livro está pronto, com ilustrador e tudo à espera de ver a luz do dia.

Entretanto às vezes falo nele com pessoas que já não são crianças. E penso nele eu também. E aprendi ao longo destes quatro anos em que o penso a viver a par com o meu círculo da felicidade. A ir buscá-lo a qualquer hora.

Desde que saí do hospital que aconteceram muitas coisas, para além do hospital em si e do efeito da medicação, que me fizeram precisar e pensar muito no meu círculo da felicidade. E vi-o em Sintra quando a R. me ofereceu a Nossa Senhora das Mentes Iluminadas para que a minha cabeça se mantenha bonita com esta fé que é a nossa e que se encontra nos labirintos que quiser e na forma que quiser; na L. a gritar ao fundo do corredor quando me sente entrar "tia rosiiiiinha tia rosiiiiinha já não vais mais para o hospital que eu tive tantas tantas saudades tuas"; ontem a trocar segredos com a I. enroladas em mantas e aquecedores e ela dizer que o que nós precisamos é de café com leite condensado (magro claro) e depois de uma razão qualquer para acabar com a lata; ao segurar a S. ao colo que nem dois meses tinha e ficar a ver a cabeça dela aninhar-se no meu pescoço; no ouvir o Fossanova a atravessar o rio sozinha na minha carripana, a caminho do Samouco onde as crianças gritam pela casa e vêm a correr buscar-me à porta e não me saem do pescoço o dia todo; no estar em frente ao mar com a F., a J., o F., o N. deitados na areia e sentir a água do mar passar pelos kgs de roupa que nos vão proteger do frio dessa noite; no ouvir a voz do L. e ter a pele dele ao pé da minha; no ler um texto do Pullman que põe Jesus a falar, revoltado e triste, com Deus e sentir aquela excitação do "caramba...", que nem me deixou dormir; no voltar a escrever um poema mesmo que arranhado e torto; ontem sair do médico e ter a R. no café; a ouvir o FMI do José Mário Branco depois de vir do LIDL de Odemira e pensar que é mesmo isto.

"Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos!"

A questão é mesmo esta. O Círculo da Felicidade tem um só lado. Não podemos ficar em casa a imaginar que em tempos houve coisas que tínhamos dentro do círculo e que já saíram. Toca a mexer. A procurar. A vida é gigante e o mundo não pode ter fossos onde possamos cair. "Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro."

Manuel Resende

Manuel Resende, Em Qualquer Lugar seguido de O Pranto de Barlomeu de Las Casas , &Etc, 1997