sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

depois de

Acho que chegou a altura de parar outra vez. Pensar tudo o que pensei outra vez naquelas três semanas de "cativeiro". Percebi que me tinha esquecido de tudo quando fui ler o que escrevi. E não pode acontecer porque não podemos desaprender mesmo que queiramos esquecer as provações mais tristes. Porque triste é o que se tornam os dias sem saber o que aprendi ali.

Descubro que não tenho tempo. Que não vejo o rio desde aquela altura, com os dois olhos abertos. Que não penso com o nascer do sol. Que me custa acordar e que me custa adormecer. Que me custa muito esta batalha dos dias. E descrevi os dias como uma batalha e achei que estava a ser destrutiva mas não estou. Porque é mesmo isso que são todos os dias. O dia que deixar de ser uma batalha é o dia em que me deixo arrastar e deixo que me ditem as regras. E às vezes a pele é fraca, os sentidos estão dormentes. E na batalha não estão. Na batalha os sentidos estão alerta e encantados.

Tenho medo. De saber o que me aconteceu. De que me aconteça outra vez. De fazer os mesmos erros do passado. De não ser apaixonante. Da solidão. Tenho medo da solidão. Mas tenho mais medo de desistir. Nunca em nenhum dia desisti. E quando parecer que estou num sítio onde não me cabem os movimentos dos braços quero ter as palavras que tive lá a ressoar na cabeça e no coração. Não vou desistir de nada, mesmo que quem me cuida me peça desistências para que a minha cabeça descanse. Tenho a minha não desistência como a certeza da inevitabilidade da beleza disto tudo. E a minha cabeça nunca quis descansar. Mesmo quando esteve exausta. Mesmo quando saiu de lá e nada era como dantes.

Há quem diga que o hospital me trouxe mais espiritualidade, me aproximou da religião e do desconhecido. Não foi isso que aconteceu mas esteve perto disso. Apercebi-me do não limite do nosso corpo. Percebi que há um mundo inteiro que nunca vi. Que talvez o nosso tempo seja curto. Que o nosso tempo é sempre curto. Que há muitas pessoas a quem podemos ajudar só com uma hora de conversa. Que temos um poder ilimitado na relação com os outros.

E depois percebi o que devo às pessoas. Que quando o meu mundo começar a desfazer-se eu monto-o mais forte que antes para que os outros não me vejam falhar. E que só quando os outros se recompuserem eu vou poder permitir-me cair um pouco, o tempo exacto de alguém começar a cair. Porque a amizade funciona desta forma, como uma montanha russa. Nunca tem duas pessoas em baixo.

E depois percebi o amor. Que não se faz de encontros furtivos, nem de meses contados. O amor é encontrar a pessoa com quem nunca temos de fingir, a única que pode ir ao fundo ao mesmo tempo que nós, porque lá em baixo somos sem pele nem mentiras nem segredos. E onde encontramos nessa nudez total o sítio certo onde nos sentimos bem. É encontrar a pessoa que todos os dias nos pensa e imagina no melhor de nós. E precisa de todos os dias fazer seja o que for para nos amaciar as dores. E que é o único que nos vê por vezes sem dores nenhumas. E o amor já não pode ser menos do que isto nem o será muitas vezes na vida porque é demasiado raro.

Agora preciso de pegar em todos estes ensinamentos e deixar que eles me guiem. Mesmo que a batalha me canse e por vezes oiça aquela voz dentro da cabeça "estou cansada estou cansada estou cansada". Há sempre um sítio secreto onde descansar.

Hoje sou indesistível. Sou com vocês indesistível. Nao me peçam menos que eu não sei dar. Os dias são grandes e a vida é bonita. E todos os dias têm uma poesia que fala nisso. Só é preciso encontrá-la.   

2 comentários:

vera disse...

Encontro essa poesia dos dias bonitos em ti.
Não te deixo desistir e quando for preciso descansar, podes poisar no meu ombro e descansar que eu seguro essa resistência.
Obrigada, Rosa, por me ensinares a cor dos dias, das coisas boas e das coisas más e por as transformares em poemas.

Ana Fernandes disse...

e depois de ler este desabafo uma vez passo para reler de vez em quando porque como acontece nos livros há parágrafos que se colam... neste caso um parágrafo a não esquecer pois não quero uma realidade que não seja a que conseguiste descrever de forma tão plena.

Clarice Lispector

À Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, Relógio de Água