terça-feira, 23 de abril de 2013

dia mundial do livro

estes dias deveriam ser de celebração e de festa. a postura perante cenários apocalípticos para os livros tem aliás sido essa, e sem grande esforço, porque há sempre um lado nos livros mais presente e preponderante que as análises economicistas da presente conjuntura. no entanto há situações que têm de ser denunciadas e faladas à exaustão, mesmo que estejam espalhadas por todo o lado e tidas como "naturais" e "expectáveis" "face à crise".
em primeiro lugar vou-me repetir e dizer que os livros não são meros objectos de distracção, não servem como acompanhamento de momentos de pausa e de descontracção. hoje não me está a apetecer ser politicamente correcta (porque mais ninguém o tem sido no ataque aos apoios à cultura e nomeadamente aos apoios ao negócio dos livros) e portanto quero lá saber do "também pode ser para descontrair e sei lá mais o quê". vou saltar essa parte olimpicamente.
os livros fazem parte em absoluto da forma de moldar o nosso pensamento. cada livro que lemos ensina-nos um mundo de coisas, quer seja por vontade explícita do texto, quer seja por identificação com o que lemos, uma vez que cada livro tem um autor e cada autor uma vivência e um ponto de vista. não acredito na leitura como um valor em si próprio porque a leitura ensina a molda-nos o pensamento, logo, nem todas as leituras são positivas por si só.
a cultura faz parte de um modo de vida saudável e inteligente - a inteligência torna-nos mais conscientes, logo, capazes de agir em consciência, assenta-nos nos carris e torna-nos mais confiantes nas nossas escolhas e na validade do nosso quotidiano. é cretino e nada inteligente pensarmos que um estado não apoia a cultura porque o dinheiro que lhe seria devido faz mais falta em outros tipos de apoios. os apoios são todos necessários e não se substituem uns aos outros. o crime não está em querermos ter livros e teatros e cinema (que sim, tem muito público, não sabe quem não vai e se baseia em preconceitos simplistas). o erro não está em termos cortes na cultura ou livrarias a fechar porque não há poder de compra e os livros não são bens de primeira necessidade. o crime está em acharmos que isso não é grave - que não é grave termos livrarias a fechar por causa das novas leis do arrendamento. que não é grave termos um cinema reconhecido mundialmente que está parado em absoluto. termos cadeias livreiras que não respeitam a lei do preço fixo e que podem não o fazer, prejudicando o comércio tradicional. o que é grave, e já não é a primeira vez que o digo, é que se ache que tem de ser assim e que a cultura deve ser auto-suficiente. então daqui a pouco também achamos que quem quer estudar tem de pagar por isso, ou quem quer ter um sistema nacional de saúde eficaz tem de pagar por isso. a cultura meus caros, não é um bem menor. um país informado, culto, consciente, íntegro é um país com um poder incalculável. se calhar o problema é mesmo esse.

hoje é o dia mundial do livro e está marcado pelo cancelamento da feira do livro do porto, pelo fecho de duas gigantes livrarias históricas em lisboa e pelo eminente fecho de outras livrarias um pouco por todo o país. a indiferença face a isto a que assistimos por todo o lado faz-me ficar triste de viver num país que valoriza tão pouco a sua cultura, desvalorizando as suas livrarias. podemos ser um país esmagado por tiranias e que ainda assim resiste é verdade. mas assistirmos a este esmagamento da nossa história cultural de braços cruzados é, a meu ver, vergonhoso e inglório. andamos tão revoltados com o estado do país e depois há situações gravíssimas, menos "generalistas" e "óbvias" que escapam à atenção da grande maioria das pessoas.
não estou a ser muito simpática nem consensual eu sei, mas desta vez, neste dia mundial do livro, apeteceu-me em vez de me unir aos meus amigos livreiros e gentes dos livros a quem esta situação preocupa diariamente, lançar alguma água fria para cima do cinismo anti-cultura que se está a levantar em cada canto. estamos numa época perigosa. e não podemos acreditar que os inimigos são apenas os outros. temos estar atentos para que não nos encham de negativismo e desânimo e, pior que tudo, indiferença. e não podemos nunca deixar de lançar água fria a quem opta por esse caminho de forma sempre tão displicente.  eles são a rapariga da porta ao lado e essa porta está demasiado ao nosso lado para nos ser indiferente.

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Manuel Resende

Manuel Resende, Em Qualquer Lugar seguido de O Pranto de Barlomeu de Las Casas , &Etc, 1997