domingo, 26 de maio de 2013

rui nunes

F. - sonho os pormenores do corpo de Manuel: a pele suja, os dentes cariados, as mãos oleosas, os dedos picados dos anzóis, cheios de calos, de por eles passar o estralho, os movimentos de Manuel a consertar as redes, a iscar o aparelho, Manuel calado, no silêncio como em uma casa.

M. - Olho-te da minha fome, sítio só meu e que me perturba, devorador de ti. Tudo o que falas é comido pela fome que eu tenho. Só te vejo nela, como a tua atmosfera. O ar que respiras está cheio de veneno, respiras um ar que te assassina.

F. - amo-te o silencioso dessa fome. O seu lado de contínua devoração.

M. - amas o quê, Francelina? amas isto, olha, os meus braços, pernas, o caralho, é o que tu amas.

não desviou a mão do peito que a mão tocava. Abandonou-a. E no mesmo lugar a mão lhe ficou exterior.

F. - Todos os dias uma nova morte. Um fim que se repete.

Francelina lambe o corpo de Manuel, nu, na enxerga.

F. - o teu corpo sabe a sal.

Grito
Rui Nunes  

há dois tipos de escritores. os que são como o rui nunes e os outros, todos. 

4 comentários:

C. disse...

quando li o "Cães" disse uns quantos palavrões. Como é possível um tipo que escreve desta maneira, com esta intensidade passar ao lado de quem lê-demorei demasiado tempo a chegar lá.
que tipo de escritores são estes no panorama literário actual? que tipo de leitores temos de ser?

rosa disse...

tenho pensado muito a sério e muito tempo nestas tuas perguntas. prometo responder com um texto :)

C. disse...

novidade com delay :P
"Armadilha" de Rui Nunes :D

rosa disse...

Esse não conheço, comprei esta semana mais dois :)

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