sábado, 3 de agosto de 2013

O da Joana, Valério Romão, Abysmo

Valério Romão começou a prometer, aos meus olhos, no primeiro número da Granta. o Autismo vem a caminho, em breve falarei dele.
O da Joana conta um só episódio traumático para Joana e para Jorge, o marido. depois de uma primeira cena genial, envolvente e misteriosa que nos embarca numa cena que nos corta a respiração entramos numa história onde achamos, durante poucas linhas, que podemos respirar do ambiente em que embarcámos na primeira cena. mas não. a espiral descendente deste livro começa logo no início e não termina. nunca percebemos o ponto de vista real do livro, o que, a meu ver, é o que de mais interessante e inovador podemos ler neste livro – ao nunca percebermos o ponto de vista que estamos a ler nunca sabemos o que é real e o que é fruto da crescente loucura da personagem. nunca percebemos em que universo estamos. é uma escrita corrida e respirada. Ao mesmo tempo asfixiante e dolorosa. um exercício de estilo e uma forte manipulação psicológica. uma manipulação que nos faz amar e detestar a Joana, sentir piedade e medo, angústia e uma doce simpatia. nada é pacífico naquele livro que se lê rápido e nos deixa um rasto de angústia duradouro. um livro que alterna entre profundidade e tona de água. o que acontece à própria Joana, que vem por vezes à tona de água da realidade. mas nós nunca percebemos onde está a sua, logo, a nossa realidade. só podemos adivinhar.

não é um livro fácil mas é um livro necessário para quem gosta de escritores. e o Valério Romão é daqueles bons escritores que prometem muito. E isso é tão raro como incrível. Fazia falta o Valério Romão antes de saber que existia. fazia falta alguém que usasse a arte crua das palavras sendo escritor sem a arte do enfeite. aquilo é a verdade – a pior das verdades, mas a verdade. e poucas vezes é fácil falar da verdade. e ele consegue. sem medos.

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Clarice Lispector

À Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, Relógio de Água