segunda-feira, 11 de março de 2013

o leandro morgado e o seu status

já aqui falei do Leandro Morgado e dos seus espectáculos. no passado dia 1 de março o Leandro esteve no Villaret com o seu espectáculo Status, uma apresentação única de um espectáculo que não é novo, mas que foi repensado e revisitado, numa sala praticamente esgotada, mais de 200 pessoas. um espectáculo de comédia, slam poetry, música, magia. é quase redutor dizer do que é o espectáculo do Leandro, porque aquilo que ele faz é único e é aqui que começa a genialidade do resultado final. o primeiro indício da qualidade do que vimos ali é mesmo o facto de o Leandro ter criado um conceito - um tipo de espectáculo que não existe e um conceito para cada um dos espectáculos. e um (duplo) conceito que funciona (duplamente). e passo a explicar. o Leandro cria um conceito do qual vai falar em cada espectáculo. neste caso o conceito era o Status. depois durante meses estuda o conceito, pensa sobre ele, devora livros, documentários. e pensa muito, reflecte, fala sobre aquilo, procura opiniões. depois pensa numa forma de expôr aquele conceito no palco com piadas, magias, poemas, canções. mas o mais importante é que quando assistimos a um espectáculo destes não estamos ali (só) para rir, ou para ver magias, ou ouvir música. o Leandro cria connosco um diálogo. fala connosco, conta-nos o que pensa sobre o assunto, o que o fascinou, o que o encanitou, ridiculariza o que é de ridicularizar. o espectáculo torna-se num espectáculo inteligente, o nosso riso torna-se um riso inteligente. saímos de lá mais cheios, mais ricos, mais críticos. e bem dispostos. não há piadas fáceis, não há caminhos fáceis no guião do Leandro. os meses de trabalho notam-se e sentem-se a cada minuto. e, para além disso, o público reage sempre de forma positiva, a sala do Villaret esteve quase 2h30 ao rubro, sem perder energia, porque o Leandro comunica de forma notável com o público sejam 5 pessoas ou 250 pessoas. ele compreende o público, enquadra-o no espectáculo, e nós vivemos o que vemos ali, em absoluto, ao mesmo tempo que ele.

o espectáculo a que assistimos ali está muitos metros a cima de qualquer espectáculo de magia, stand up, ou slam a que já assisti. está porque é trabalhado, pensado, porque tem um objectivo. o Leandro tem um objectivo comunicativo muito específico quando cria os espectáculos que cria. e a forma como esses objectivos são passados para o público e como funcionam torna-os únicos. e o público percebe isso desde o início.

há ainda um outro lado mais escondido disto tudo. o Leandro chegou onde está a custo de lutas pessoais e por escolhas que fez. escolheu sempre caminhos improváveis e arriscados. escolheu não desistir. escolheu que aquele era o objectivo dele e escolheu contornar todas as dificuldades para o atingir (e não são poucas, e não são espaçadas). e se vocês não ouviram falar dele não é porque não tem valor para isso, é apenas porque não escolheu os caminhos fáceis da notoriedade. infelizmente há caminhos fáceis demais para ganhar visibilidade. ele escolhe não ir por aí, o que lhe dá mais carácter e confirma ainda mais tudo o que acabei de dizer. quem o conhece e o vê gosta sempre e sai de lá de peito cheio. é preciso é chegar lá e esse caminho tem mais brumas do que podem imaginar.

este ano o Leandro conseguiu a proeza de ir ao Fringe, em Edimburgo, com um espectáculo novo em que está a trabalhar agora. e fê-lo com a naturalidade de quem escolhe um objectivo não pondo a hipótese de desistir dele. mas a verdade é que o Leandro vai pisar o palco do maior festival do mundo dos seus pares. e talvez este feito seja difícil de interiorizar no imediato, mas é uma bomba e um passo de gigante numa carreira que não pára de prometer. e o meu bilhete está comprado, claro, vou estar na primeira fila a aplaudir o artista e a minha pessoa, porque há trabalhos que têm de ser reconhecidos. o trabalho artístico e a pessoa rara que ele é.  

há só um "problema" se virmos muitas vezes o trabalho do Leandro. tornamo-nos muito mais críticos com tudo o resto. todos os comediantes e mágicos e slammers ficam sempre aquém. o Leandro apura o nosso sentido crítico e a nossa exigência, e isso, infelizmente já é muito raro. e como ninguém faz este tipo de espectáculo, os outros ficam apenas a ser uma fatia do que ele é. um bem haja por isso Leandro. és o maior.

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