segunda-feira, 11 de março de 2013

onde pára o boris vian?

muitos me têm pedido novas do meu boris vian. devo dizer-vos que raras vezes desisto de um projecto a meio, e este agora sim vai lançado ao infinito. estou naquela chamada primeira fase que ocupa talvez 90% do tempo de todo o trabalho. estou a ler biografias, os romances, os poemas, as peças de teatro. neste momento releio o L'arrache-coeur, dez anos depois da primeira vez que o li e é incrível como tenho os ambientes, aquela família e aquela casa recortados na memória. releio o boris, leio o boris, penso o boris, conheço os amigos, a família, os hábitos, as mil profissões. o boris é um mistério, como uma personagem de quem não se conhece o real e esse mistério arrepia-me a curiosidade.
como não tenho prazos porque fui eu que "inventei" este projecto vivo com o boris vian tranquilamente todos os dias. nunca saio de casa sem um dos livros dele, passo nas livrarias a encomendar livros de queneau, sartre ou beauvoir, passo pela minha estante de livros franceses, que tem a vantagem de estar completa porque estes ninguém me pede emprestados e descubro que afinal não tenho o la force des choses, mas tenho o une morte trés douce, os dois da beauvoir. depois tiro da estante o la nausée do sartre, e ao lado encontro o le soleil et l'acier, do mishima que já não tem a ver com o boris, mas folheio-o com a paixão do mishima, descubro que o suicídio dele não só foi planeado e conhecido como público, e que nesse mesmo dia pôs o último ponto final no últino volume da tetralogia le mer de la fertilité, cujo primeiro volume encomendei esta semana de frança porque em portugal não existe esta pérola.
de repente estou na sala com a rádio baixinho, rodeada de boris vian e amigos, e também lá está o mishima e outros tantos que foram sendo arrastados para aqui.
é neste ponto que está o meu trabalho. nos serões a ler, no conhecer o boris como quem conhece devagar um amigo que será próximo. nunca tinha vivido todos os dias tão intensamente com um só autor. e é do caraças. não só por ser o boris, é porque passamos os dias com tanto para ler que não dedicamos nunca tanto tempo só a um autor. e não o conhecemos com esta profundidade.
de forma mais pragmática posso dizer que já escolhi poemas, citações dele e de amigos, muitos dados biográficos, tenho algum trabalho adiantado. falta a parte (bem mais dolorosa para mim) de criar o corpo do espectáculo. fogo de artifício de inseguranças. penso muito nisso (passo grande parte do meu dia a pensar no boris) e tenho muitas ideias. mas tudo me parece muito longe do que quero fazer. vamos ver.
ficam a saber que não desisti, muito longe disso. estou encantada de boris, rodeada de boris, tonta de boris, em absoluto fascínio. claro que é solitário, continuo à espera dos vossos boris. que isto de trabalhar sozinha pode parecer muito tranquilo mas o que faço quando, ao ler a lista de neologismos do L'arrache-coeur encontro a palavra psychoser, assim qualquer coisa como psicoisar em português e me encanto a rir, eu que adoro neologismos?

1 comentário:

Anónimo disse...

e o Vernon não entra? eu gosto bué do Vernon.
Ricardo irmão do Pedro

Clarice Lispector

À Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, Relógio de Água