sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

a leitura está fora de moda

há alguma animosidade com os livros. já sabem que tento sair da minha bolha para entender e analisar os movimentos sociais que se geram à volta da ideia da leitura mas que seja como for será sempre a minha bolha. um pouco alargada, vá. foquemos nesse ponto de vista.
a leitura de um livro pressupõe sempre uma enorme diversidade de sensações, universais (sim, universais dentro de um universo de leitores, universo onde me vou centrar, para além da minha bolha). temos o enredo e a escrita, que muitas vezes não se relacionam, ou, pelo menos, não se interligam em absoluto. depois temos a leitura emocional e a leitura crítica onde se opera o mesmo fenómeno de uma não interligação nem imediata nem obrigatória. socialmente a leitura e a partilha de "leituras" tem caído em desuso, cada vez mais a leitura é um processo solitário. muito longe da música e do cinema por exemplo (se bem que a faceta literária do cinema caia no mesmo problema) onde toda a gente partilha e mostra e quer falar disso. é comum vermos conversas de muito tempo sobre a música que gostamos e partilhas de downloads e de vídeos do youtube e de CD's físicos. com livros assistimos a um mercado negro de partilha de livros sem grandes alaridos ou comentários, quase como se fosse uma actividade clandestina. tornou-se desconfortável e desagradável estar muito tempo a falar de livros. das características que falei em cima há umas que se vão sobrepondo. a história é mais fácil de receber, entender e assimilar do que a escrita. neste mesmo sentido a leitura crítica perde terreno para a leitura emocional que também é mais fácil de assimilar porque é instintiva.
ler e ler muito e falar sobre isso tornou-se elitista. pensar os livros está fora de moda. ou gostamos ou não gostamos e pronto, e se gostamos passamos ao próximo e ficamos por aí. a crítica literária aproxima-se dramaticamente da descrição do enredo com pequenos apontamentos para a escrita (salvo raras e honrosas excepções). já lá vai o tempo em que se assumia com naturalidade que o eça não podia estar mais a borrifar-se para a história dos irmãos maias e que aquilo que verdadeiramente lhe interessava era a forma com eles reagiam a essa história. como eles, enquanto lisboetas do final do século XIX reagiam a essa história. era assumido que era assim. os leitores do século XX passavam muitas vezes aquilo que se costumou chamar "páginas de descrição" (??) à frente para chegarem à história de amor. se calhar era mais fácil ler um nicholas sparks que é mais pequeno e ele já fez esse favor ao leitor. ler um livro não deveria ser sacar dele aquilo que nos interessa. é um exercício cansativo e frustrante, assassina os livros e não nos traz nada de novo. os livros, na minha modesta opinião, servem e existem para nos fazer evoluir. para nos acrescentar alguma coisa. se fintarmos o que nos livros nos provoca esse efeito não me ofende, de todo. mas transforma o tempo de quem o faz em tempo perdido e a cabecinha num elo mais fraco.

o que queria referir aqui é que já não há boas conversas sobre livros (na minha bolha entenda-se). tenho saudades daqueles momentos de conversas que nunca seriam elitistas porque aí a leitura não era elitista em que falávamos horas sobre os livros que tínhamos lido e os livros que queríamos que os outros lessem. sem "cenas". só nós e os nossos livros a falarmos sobre isso. sinto uma grande solidão hoje em dia na minha vida que, arrisco dizer, tem em si os livros como a marca mais forte. se calhar por isso é que tenho este blog, que por alguma razão tem tão poucos comentários. os livros estão fora de moda. ou melhor, não quero ser injusta. a leitura, a verdadeira, está fora de moda.

3 comentários:

pedro disse...

Agora já dá ;)

Por isso, cá fica o comentário: gostei do texto, e um blog como o teu será sempre um blog pouco comentado, acho que faz parte do encanto.

C. disse...

Afinal não era só eu ;)

Ler, partilhar, discutir era também partilhar/expor o melhor de nós, e então crescer e estar atento e vulnerável às inúmeras possibilidades que se abriam perante nós.
hoje...hoje a leitura parece um passatempo, falar de livros reduz-se aos tais resumos, ou a demonstrações enciclopédicas para...bem, para nada.


aproveitando o comentário- Roberto Arlt recomenda-se?
:)

rosa disse...

:)
obrigada aos dois.
o arlt é um dos grandes nomes da literatura argentina e sim, é muito bom, ainda que não seja muito fácil. em portugal não há é muita coisa dele traduzida...

Manuel Resende

Manuel Resende, Em Qualquer Lugar seguido de O Pranto de Barlomeu de Las Casas , &Etc, 1997