segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

solidão literária e auto-produção

há uns anos para cá decidi trabalhar sozinha. por muitas desilusões pessoais e profissionais mas sobretudo porque depois os projectos ficavam a meio e aquilo entristecia-me. é que deixar um projecto a meio encanita-me até à lua. no entanto a escolha de trabalhar sozinha é muito mais uma defesa do que uma escolha efectiva. detesto avançar, descobrir pérolas, imaginar um espectáculo, um curso, um evento sem ter ninguém com quem partilhar o que se vai passando. assim vou arranjando amigos (cada vez menos efectivamente) com verdadeira paciência para ouvirem o que ando a fazer. numa época em que as minhas pessoas se viram cada vez mais para dentro e para as suas vidas eu vou realmente ficando mais sozinha no processo criativo e no processo de crescimento de ideias. salvo honrosas excepções, claro, ainda esta semana num café com um amigo pedi para trabalharmos juntos só para que ele estivesse ao meu lado na altura em que eu tivesse (potencialmente) uma epifania. ele disse que sim. ele tem muita paciência para mim. é querido.

claro que para além disso tenho os blogs. se quiserem lêem, se não quiserem não lêem mas eu escrevo e partilho.
e hoje queria partilhar com vocês o meu novo processo de auto-produção, uma técnica muito aconselhada para quem tiver comportamentos obsessivos como o meu no que o obsessivo tem de positivo. uma técnica muito comum mas que eu vou agora teorizar, porque me apetece partilhar isto com vocês.
lembro-me de ter 7 ou 8 anos e já ser assim, auto-produtora do meu tempo. almoçava sempre à mesma hora, na casa da minha avó e sentava-me sempre à mesma hora na mesma cadeira, na mesma posição e fazia os trabalhos de casa até exactamente à mesma hora, que era cedíssimo, tipo 15h. depois saía porta fora e ia para casa das avós da I. brincar. que na casa da minha avó não podíamos nem mexer numa almofada na casa da avó da I. tínhamos um quarto só para nós e fazíamos bolos de terra. depois cresci e na escola era ultra organizada. era muito boa aluna mas não era excepcional no entanto nunca fazia noitadas, nunca tinha stresses, era tudo pensado antecipadamente como os produtores devem fazer. só descambou muito mais tarde, no mestrado onde trabalhava ininterruptamente das 8h às 23h quando caía desfalecida de cansaço, sem folgas nem fins de semana. aliás lembro-me muito pouco do que aconteceu esses meses, tenho um buraco na memória. mas até aí quando o Zink me disse que tinha de entregar a tese já no dia a seguir, dois dias antes do previsto, eu tive um colapso nervoso mas na verdade a tese estava pronta. eu é que não estava pronta.

no outro dia voltei a colapsar. fiquei duas horas a olhar para a televisão sem estar a ver televisão, a ver imagens e sons a passar e sem conseguir pensar em absolutamente nada. e então reavivei o processo de auto-produção que me tinha salvo na altura dos exames nacionais, ainda na escola. muita gente me pergunta como consigo eu fazer tanta coisa ao mesmo tempo, se tenho tempo para respirar e o que lhes digo é, sem qualqure falsa modéstia, que o que tenho para fazer não é assim tanto e faz-se muito bem ao longo do dia sem ter de abdicar de absolutamente nada. o dia é gigante se for pensado na totalidade. portanto este processo tornou-se fácil de gerir. a técnica é sair de dentro da minha cabeça e perceber, como se fosse um amigo a tentar ajudar-me, tudo o que tenho de fazer. e, meus caros, quando digo tudo o que tenho para fazer, é tudo. desde separar capítulos dos livros numerando-os, lê-los, enviar e-mails, pesquisar falhas do curso anterior ara que não falhe agora, ler artigos, entrevistas, preparar livros para o LEVA (este tem notas e não podem ser lidas na totalidade), recolher textos do Vian já seleccionados, a reformular apontamentos dos cursos, registar voluntários, etc.. depois organizar cada uma das coisas por dias, numa lista, ou melhor em duas listas. numa, num calendário mensal, com os avanços do trabalho. outra, sem datas, das coisas paralelas que não me posso esquecer de fazer. a ideia é que a cabeça não volte a colapsar, ou melhor, que no dia em que tiver de colapsar, o possa fazer em paz, porque o trabalho já foi organizado antecipadamente e portanto não é necessário estar todos os dias em sentido. e o trabalho flui.

isto funciona. não cumpro diariamente mas há um dia em que consigo recuperar o atraso e é um alívio gigante. agora sim consigo ver alguma luz ao fundo do túnel com o espectáculo do Boris Vian para o qual tenho ainda de ler uns nove ou dez livros para escolher textos antes de começar a desenhar o espectáculo.

eu sei que isto roça a patologia mas a verdade é que desde que comecei a produzir-me a mim própria ando muito mais descansadinha. se precisarem de ajuda, já sabem, peçam-me a mim que também vos posso "produzir". em troca venham trabalhar para o café comigo para que, se voltar a ler um texto como o que postei aqui do Boris Vian tenha a quem mostrar. é que até dei saltinhos. e dar saltinhos sozinha é ridículo.

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Três Marias