segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

oh Franzen oh Liberdade!


Liberdade de Jonathan Franzen mascara-se de livro comum mas as marcas de diferença surgem a cada uma das muitas páginas do romance. uma das primeiras marcas de um bom romance é aquele que não coloca as personagens em caixas com nomes determinados. onde não há "bons" e "maus". e este livro conta muito mais do que o que aconteceu às personagens, conta a história das personagens. com um pendão existencialista conseguimos ver a profunda transformação de cada uma delas na vivência com os acontecimentos e percebemos que nada é imutável nem intrínseco perante o contacto com os outros e com os acontecimentos.
Patty é a personagem mais perturbada. vive diariamente e uma vida inteira num conflito entre a vontade e a moral que ela própria impôs. entre a lealdade a Walter e a obsessão por Katz. apesar de ser a única personagem que fala em determinados momentos na primeira pessoa o facto de ela escrever essas "memórias" com fins terapêuticos faz-nos questionar a veracidade do que diz. mesmo Walter, ao ler o que esta escreveu não só lê a verdade dos factos, como nós, como lê o que está para além desses factos, lê a forma como Patty sentiu todos os anos de casamento, desde o momento em que o conhece.  nós também conseguimos ler isso, claro, mas na reacção de Walter percebemos que há interpretações que ele terá feito que nós não podemos atingir.
Walter tem tudo para ser uma personagem modelo. pai modelo, marido modelo, até amigo modelo. a forma como Franzen o constrói é fascinante. Walter parece, quando aparece, uma personagem plana e neutra, vista pelos olhos de Patty. Walter não parece alguém que se possa amar mas sim alguém adorável que sabemos que estará sempre do nosso lado se tivermos a sorte de o ter como amigo. falta-lhe inicialmente uma energia que possa fazer com que alguém se possa apaixonar por ele. mas depois com o desenrolar do livro percebemos as falhas, os restos de humanidade, o desequilíbrio que se desenvolve ao mesmo tempo que se desenvolve o desequilíbrio de Patty. e é impossível não sentir essa paixão por esse Walter, que sente uma perturbação imensa mas que a esconde por respeito e amor aos que o rodeiam. que não perdoa Katz mas que se comove com algum histerismo quando Katz lhe faz a supresa do CD. que não perdoa Patty até imaginar que ela possa estar realmente a sofrer e em perigo. na luta da perturbação contra a bondade, em Walter ganha sempre a bondade. mas não sem antes ter ensinado o que tinha a ensinar. com tudo o que lhe acontece Walter sai sempre vitorioso dando uma abada emocional a todos os leitores e a todos os que convivem com ele. fica por esclarecer o porquê da relação complicada com os filhos (no livro há um salto temporal muito grande) ao mesmo tempo que fica por esclarecer o apaziguamento repentino com Joey. fica por esclarecer a passagem do amor que sente por Patty para o amor que sente por Lalitha e a dificuldade que tem em sobreviver à tragédia, altura em que o leitor poderá então perceber que aquilo era real.
fica muito por dizer em Liberdade. Franzen cria uma estrutura narrativa entrecortada por vários pontos de vista, dando o que por vezes pode ser uma exagerada narrativa entrecortada. no entanto há imensos vazios por preencher na narrativa e ninguém terá certamente lido o mesmo livro.
para terminar apenas uma palavra para as últimas páginas do último capítulo. aqui depois de um desenrolar que para alguns poderia ser expectável e previsível e sem chama, o ponto de vista passa para a vizinha de Walter e Patty, que apenas conhece o que vê, que poderá ser, e será, montado por Patty, que sempre soubera muito bem manter as aparências. e Franzen, sem pôr um ponto final que por si só já lança a interrogação num livro qualquer, aqui Franzen deixa-nos mais umas páginas de um ponto de vista desfocado deixando-nos sem perceber que fim foi este, sem perceber o que realmente aconteceu dentro de quatro paredes. é que este não é, de todo, um livro qualquer. é um Franzen.

(tenho muito mais a dizer mas isto depois ficava chato. qualquer questão ou vontade de discutir os livros diferentes que lemos quando lemos o Liberdade, podemos beber um café)

2 comentários:

pedro disse...

Estava eu a tentar escrever qualquer coisa sobre este livro e dei com o teu texto. Quase que já não me apetece dizer nada... Muito bom!!!

rosa disse...

:) que bom Pedro!

Clarice Lispector

À Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, Relógio de Água