quarta-feira, 30 de outubro de 2013

a genialidade

tudo o que aqui for dito a respeito da literatura é favor adaptar para a área que vos interessar. este blog só não se chama é estórias com outra coisa qualquer.

ando há uns tempos a pensar na genialidade. tenho chegado a algumas conclusões não muito pacíficas mas tentarei, como sempre, expor isto que penso da forma mais pacífica que existe, ou seja, soando a elogio a todas as partes para depois continuarmos todos amigos. não é fácil.
passo os dias todos de cabeça enfiada nos livros. e por livros leia-se cenas com folhas e coisas escritas, poderá até ser, como ontem no barco, um folheto do LIDL com umas cenas gourmet para o natal. tenho pouco tempo para tudo o que queria ler. andamos sempre a pedir uma entorce não dolorosa que nos mande para a cama de baixa para pormos algumas leituras em dia. não resulta. lembro-me a famosa frase que é tantas vezes referida na minha família "cuidado com o que desejas que pode acontecer-te". é verdade. fui lançada para um hospital durante vinte dias sem qualquer sintoma e nem uma linha li (se bem que não ter sintomas físicos é outra história mas avante). havendo pouco tempo tento sempre ler os melhores. e tento ler os melhores em todos os momentos que posso do meu dia. mas.
tenho encontrado na vida muitas pessoas que procuram a perfeição na leitura. uma perfeição certeira e subjectiva mas uma perfeição. recusam-se na sua maioria a ler livros que considerem comerciais, artificiais, e que sirvam outro propósito que não a arte da literatura. não podia estar mais de acordo. não leio livros maus, nunca, e desisto de livros a meio, mais vezes do que gosto de admitir. procuro o meu sítio certo da leitura, e está a ser tramado de encontrar, ando às aranhas.
mas não me identifico com a procura da genialidade. com o patamar onde às vezes subimos e não conseguimos descer. não quero subir a fasquia a um sítio onde grande parte dos livros que me foram importantes não caibam. acho que a qualidade literária se mede por faixas. quando começo a ler um autor encaixo-o numa faixa. se está numa faixa que considero má não o leio. um dia em que um autor suba de faixa é um dia feliz. no dia em que desce sinto-me desiludida como uma traição pessoal. aconteceu com paul auster por exemplo, desceu umas três ou quatro faixas.
no entanto eu quero que essas pessoas existam. esses leitores que procuram a perfeição. às vezes temos de sacrificar muito conforto para atingir um nível semelhante a esse. esses leitores sacrificam. conforto e amabilidade. tornam-se irritantes, roçam o pedantismo e tornam-se insuportáveis, na maior parte do tempo. como muitas vezes nos meus cursos disse relativamente a muitos livros, é importante que estes nos causem sensações extremas, seja de amor ou ódio. a indiferença perante um livro é a pior das leituras. e eu tanto odeio estes leitores como me apaixono tolamente por eles. e o que me apaixona é que eles sacrificam a amabilidade e o conforto mas eu aprendo com eles muito mais do que com leitores como eu. por isso deixem-se estar, irritantes, pedantes e insuportáveis. porque no dia em que acertam é mesmo no sítio certo. e isso é insubstituível. 

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Clarice Lispector

À Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, Relógio de Água