quarta-feira, 23 de outubro de 2013

perder um amigo como quem perde parte de todos os quotidianos





a primeira vez que vi o manuel foi à porta da Culsete. ele olhou para mim com aquele ar malandro e disse "ah tu é que és a rosa!" e eu disse "e tu é que és o livreiro velho.". a primeira de muitas visitas ao manuel e à fátima, em poucos anos, que parecem mesmo poucos.

a última vez que o vi foi em casa dele. sentámo-nos no meio dos livros e falámos um bocado. falámos de surrealistas e da leitura, como sempre. falámos de como era importante não deixar cair o Dia da Livraria e do Livreiro, não sabendo ele que era nesse dia, 30 de Novembro, que teríamos uma grande homenagem preparada.
tenho poucas palavras e sei que com o tempo terei muitas. desde que soube que ele estava pior e que teria pouco tempo que me tenho lembrado de muitos episódios. há um que é para mim o mais bonito e que tenho de falar aqui. o manuel foi o primeiro a ligar-me quando saí do hospital na véspera de Natal. disse-me que uma vez, das muitas vezes que já tinha estado internado, também tinha saído naquele dia. e disse-me que no final não eram as más memórias que interessavam, era o voltar para casa.
o manuel era e é imortal, ia sempre sobrevivendo e nós íamos rindo com ele. ele que dizia e garantia que já tinha estado morto umas três vezes mas que pregava sempre partidas ao destino. há notícias que não acreditamos que cheguem nunca, esta era uma delas.
agora quero ir para setúbal dar um abraço à família-maravilha. porque hoje não há outro sítio para estar.






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